MÓDULO II - APOLOGÉTICA: Aula 01 - A História da Igreja

 

“Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos". (Marcos 8:38)

1 – Introdução

 

Jesus Cristo nasceu na Palestina, naquele que acabou sendo estabelecido como o ano 1 da Era Cristã (com controvérsia), durante o reinado de Otávio Augusto, primeiro imperador romano. Sua morte ocorreu, provavelmente, em 29 d.C., no reinado de Tibério, o segundo imperador. Ao longo dos três séculos seguintes, o Cristianismo seria largamente perseguido pelo Império Romano, até sua legalização já no reinado de Constantino, em 313, e sua posterior oficialização como religião do Império por Teodósio, no ano de 390.

O Cristianismo surgiu na Palestina, região sob o domínio romano desde 64 a.C. Teve como origem a tradição judaica que cria em um Messias que chegaria para os libertar de Roma.

A Palestina jamais se submetera totalmente ao domínio romano, levando o Império a uma postura repressiva em relação à população local, que reagia inclusive por meio de movimentos armados contra a presença romana.

Foi em meio a esse clima politicamente tenso que Jesus procurou exprimir uma mensagem baseada no amor ao próximo, no perdão às ofensas e no desapego aos bens materiais. Tal mensagem em nada ameaçava o domínio romano, mesmo porque Jesus sempre enfatizou que sua pregação nada tinha de política, que o reino a que se referia não era um reino terrestre.

Por outro lado, o caráter explosivo da região, aliado à postura romana de combater sistematicamente o surgimento de lideranças que pudessem ofuscar o predomínio do Império, faziam de Jesus um inimigo potencial para Roma. Outro elemento a ser considerado é a atitude comum do Estado Romano, de procurar aliar-se às elites das áreas dominadas, utilizando-as como um elemento de controle sobre os setores populares. Isso, desde que as autoridades fossem conviventes com a dominação.

Dessa forma, a condenação a Jesus imposta pelos romanos seria um ato de simpatia para com as autoridades religiosas judaicas, que já o haviam repudiado como blasfemo.

Segundo os Evangelhos, Jesus foi preso pelos romanos, sob a acusação de conspirar contra o Império. Torturado, foi condenado à morte e crucificado no ano de 29, a mando do procurador romano Pôncio Pilatos.

2 – Período de Perseguição ao Cristianismo

 

A primeira perseguição da Igreja ocorre com Nero, que subiu ao poder em outubro de 54 d.C. após o

grande incêndio de Roma. Os que se opunham a sua vontade sumiam misteriosamente ou recebiam ordem para suicidar. Em 18 julho de 64 d.C, (o não lá começa em setembro e termina no outro setembro, por isso parece que a data está errada) ocorreu um incêndio em Roma que durou vários dias. Muitos rumores sobre o culpado surgiram, criando várias teorias. Nero aproveitou a situação para colocar a culpa nos cristãos promovendo a morte de milhares deles com requinte de crueldade, fazendo que isso se tornasse divertimento para o povo romano.

Historiadores afirmam que ele se disfarçava na multidão, como condutor de carruagem, para presenciar a carnificina.

Alguns métodos utilizados para assassinar os cristãos eram:

·         Vesti-los com pele de animais para que cães os matassem a dentadas;

·         Crucificação;

·         Tochas humanas que serviam de iluminação.

·         Soltava-os em ginásios junto com leões famintos.

Indícios mostram que, provavelmente, os apóstolos Pedro e Paulo morreram durante este período. Apesar de todas as torturas, o povo cristão era visto como um povo perigoso, dada as acusações de Nero sobre o incêndio em Roma, fazendo com que qualquer pessoa que se considerasse cristã, fosse perseguida.

Em 68 Nero se suicida, em 70 o imperador Tito destrói Jerusalém e, após algum tempo de sossego, surge o Imperador Domiciano, perseguindo os cristãos a partir de 81 d.C.

Domiciano amava e respeitava as tradições romanas, sua política era de restaurar essas tradições. Para ele, os cristãos eram uma ameaça a essas tradições. Mas foi nesse período que os cristãos cresceram de forma significante, ocupando o lugar da antiga religião romana. A perseguição era dirigida aos judeus e aos cristãos. Já os pagãos os acusavam de serem ateus por adorarem um Deus invisível, e não os deuses romanos.

Domiciano foi assassinado em seu próprio palácio tendo assim mais um breve período de descanso para os cristãos.

2.1 - Martírios

 

Este ciclo de perseguição durou aproximadamente 300 anos.

No primeiro século não temos muita notícia sobre os martírios, porém, no segundo século, surgem três tipos de fontes que nos permitem saber o que aconteceu aos cristãos:

·         A ata dos mártires com detalhes sobre prisão, julgamento e morte;

·         Correspondência entre os governantes;

·         Correspondência entre os cristãos.

Uma dessas correspondências de governantes era entre Plínio e Trajano. Plínio era governador da Bitínia (Turquia) e recebe uma longa lista de acusação aos cristãos alegando que os templos pagãos estavam vazios e que não estavam conseguindo vender a carne sacrificada aos ídolos. Plínio então averigua o caso que requeria dos cristãos acusados atitudes para não serem mortos:

·         Invocar aos deuses romanos;

·         Adorar a estátua do imperador oferecendo ofertas;

·         Amaldiçoar a Cristo.

Mas percebeu que um verdadeiro cristão nunca aceitaria fazer essas coisas, e investigando as acusações que caiam sobre os cristãos, percebeu que eram criminalizados por:

·         Cantar hinos dizendo que Jesus era Deus;

·         Fazer votos de não cometer roubos e adultérios.

Diante disso, Plínio ficou confuso e escreveu ao imperador Trajano para saber o que fazer. Sobre a decisão de Trajano, o cristão advogado Tertuliano escreve:

Oh sentença necessariamente confusa nega-se a buscá-los como inocentes e manda castigá-los como culpados. Tens misericórdia e és severa, dissimulas e castigas [...] Se condenas, porque não investigas? E se não investigas porque não absolves?

 

O entendimento que o governante chegou foi de não gastar recursos na captura dos cristãos, pois existiam coisas mais urgentes. Mas caso fossem denunciados e/ou capturados, fazia-se necessário obrigá-los a adorar os deuses do império.

Aqui então começam a surgir os primeiros mártires, um deles sendo Inácio de Antioquia[1], condenado por não adorar aos deuses romanos. O ano era 107 d.C, ano em que os Romanos obtiveram vitória sobre os Dácios[2], por isso, Inácio foi enviado à capital, para que sua morte contribuísse de espetáculo dessas comemorações.

As igrejas cristãs tomam conhecimento desse fato, indo atrás de Inácio para saber o que estava acontecendo, assim surge um dos documentos mais importantes deste período, as 7 cartas escritas por Inácio enviadas aos cristãos. Na igreja de Antioquia havia muitas facções que Inácio combateu fortemente, sendo assim, provavelmente algumas dessas facções entregaram anonimamente havia o entregado ao governo.

O próximo mártir a aparecer foi Policarpo. Quase meio século depois de Inácio, em 155 d.C, a mesma política de Trajano vigorava. Policarpo era bispo de Esmirna e, aos 86 anos foi perseguido por sua fé, sendo persuadido por causa de sua idade, mas ele não cedeu, respondendo aos seus perseguidores: - “Como poderia eu maldizer ao meu rei que me salvou”?

Esta geração de Mártires nos mostra como eles conseguiram compreender o Evangelho na sua essência, não fugindo do martírio, superando o medo com fé, convictos da salvação de Cristo. Mesmo ameaçados com fogo e feras, como no caso de Policarpo, os mártires se negavam a maldizer Cristo.

Dito isto, podemos nos questionar se a nossa geração está preparada para manter-se firme na fé, caso ocorra algo como nos três primeiros séculos da igreja.

Em 161 d.C., surge então o imperador Marco Aurélio, que instaurou uma perseguição feroz, mais uma vez, contra cristãos. Para ele, os cristãos eram teimosos e supersticiosos e as acusações não eram por crimes, mas pela ideologia cristã.

Havia uma viúva de um Mártir, com sete filhos, chamada Felicidade, que, mesmo debaixo de graves ameaças, não cedeu aos romanos, nem ela e nem seus filhos aceitaram amaldiçoar a Cristo, levando-os a morte.

Vendo o exemplo dessa mãe e seus filhos nos faz refletir: Nós temos esse tipo de fé?

Nem todos cristãos estavam prontos para o martírio, segundo a carta 177 das igrejas de Viena e Lion enviadas aos irmãos da Frigia e Ásia menor, cerca de 10 pessoas cederam aos Romanos.

E hoje, quantos negariam a Cristo?

Com a morte de Marco Aurélio em 180 d.C, a igreja cristã aproveitou de um breve momento de tranquilidade.

2.2 - A Perseguição Final

 

Diocleciano lança um Edito (decreto) que todos os edifícios cristãos e livros sagrados fossem destruídos e que se privasse a dignidade de todos os seus direitos civis. Apesar de neste Edito não ter citação alguma sobre executar cristãos, uma vez que negavam entregar seus livros sagrados, eram torturados e mortos.

A relação dos cristãos com a Escritura era diferente naquela época, não havia tantas cópias e as que tinham, os cristãos defendiam com a própria vida. Acreditou-se então que havia uma grande conspiração e todos os líderes da igreja foram encarcerados e obrigados a sacrificar diante dos ídolos do império romano.

Maximino[3] torturava os cristãos, utilizando desses métodos: vazava um dos olhos, quebrava uma das pernas e as enviava a serviços escravos, como forma de intimidação. Mesmo assim os cristãos não se deixavam abalar, continuando a servir Deus.

3 – Conclusão

 

No ano de 313 d.C, Constantino foi aclamado o Imperador pelo exército, tornando-se o “César” do ocidente. Nessa época, ele teve um sonho onde via as primeiras letras do nome de Cristo, e as palavras “Com este sinal, vencerás”.

Disposto a confiar a sua causa ao Deus dos cristãos, ele fez com que o monogramo Chi-Rho fosse pintado nos escudos dos soldados. Quando ele entrou em Roma em triunfo, os costumeiros tributos de agradecimento aos deuses de Roma foram omitidos. O imperador havia lançado a sua sorte com a causa minoritária dos cristãos e desde então considerou o Deus cristão como o protetor do império e o patrocinador da sua própria missão de reforma e reconstrução.

No ano seguinte (313) Constantino e Licínio (o imperador do oriente) se encontraram em Milão e chegaram a um acordo acerca dos cristãos. O célebre Edito de Milão proclamou a liberdade de consciência, concedeu ao cristianismo plena igualdade com os outros cultos e ordenou a devolução de todas as propriedades eclesiásticas confiscadas durante a perseguição. Eventualmente, Licínio impôs sérias restrições à vida pública das igrejas. Unindo interesses políticos e religiosos, mas Constantino derrotou Licínio em 324, tornando-se o único governante do império.

As igrejas despertaram para o fato de que a causa de Roma e a causa de Cristo haviam se tornado uma só.

Ao assumir o controle do leste, Constantino apercebeu-se de um grave conflito teológico que ameaçava a unidade e a estabilidade do império. Era a controvérsia ariana[4], iniciada pelo presbítero Ário, por volta de 318, em Alexandria, que versava sobre a natureza ou status de Jesus Cristo.

Para resolver o problema, Constantino convocou todos os bispos do império a se reunirem em Nicéia, na Ásia Menor, para o que veio a ser o primeiro concílio universal da igreja (325), presidindo pessoalmente os trabalhos da assembleia e influenciando as decisões no sentido da adoção praticamente unânime de um credo que excluía o arianismo.

Nesse concílio, muitas heresias foram implantadas dando origem às falsas doutrinas, seitas e heresias que estudaremos na próxima aula.

 



[1] Inácio foi bispo de Antioquia da Síria entre 68 e 100 ou 107 d.C, foi discípulo do apóstolo João e também conheceu a Paulo, sendo sucessor de Pedro na igreja em Antioquia. Escreveu sete cartas dizendo que sofreria de bom grado martírio por Cristo.

[2] O Reino da Dácia era uma ameaça visível aos romanos, já que eles eram poderosos o suficiente em sua região para se erguer contra Roma e tomar suas províncias próximas ao Danúbio, sendo um dos principais rivais do Império Romano.

[3]  Imperador antecessor de Diocleciano (173-238 d.C).

[4] Termo que agrupa um conjunto de controvérsias relacionadas ao arianismo que dividiram a Igreja cristã desde um pouco antes do Concílio de Niceia até depois do Primeiro Concílio de Constantinopla em 381 sobre a natureza de Cristo.


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