MÓDULO I – TEOLOGIA SISTEMÁTICA - Lição 01 – A Constituição da Natureza Humana

 

“E Deus disse: — Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os animais que rastejam pela terra. Assim Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. (Gn 1:26-27 / NAA)

1 – Introdução

 

Os dois primeiros capítulos de Gênesis fornecem a descrição bíblica no que diz respeito à criação do homem. A primeira narrativa que é encontrada em Gênesis 1.26,27 é de natureza mais geral. A Segunda, em Gênesis 2.4-25, fornece alguns detalhes a mais; é o complemento da primeira. Deus é o criador do homem. Foi Ele quem, num ato especial, o fez em conjunto com os demais elementos constituintes da criação, porém o homem é a coroa, o dominador; assim foi destinado pelo criador que, segundo o relato sagrado, ao criá-lo, usou uma linguagem especial: “Façamos o homem à nossa imagem”.

A Bíblia afirma que os seres humanos foram criados à imagem de Deus. Outros textos bíblicos demonstram com clareza que os seres humanos, embora descendentes de Adão e Eva e já caídos (ao invés de criados diretamente por Deus), continuam a levar a imagem de Deus (Gn 9.6; 1Co 11.7; Tg 3.9).

Os termos hebraicos em Gn 1.26 são tseleme e demuth. Tseleme, empregado 16 vezes no Antigo Testamento refere-se basicamente a uma imagem ou modelo funcional. Demuth, empregado 26 vezes, refere-se, de modo variado, a semelhanças visuais, audíveis e estruturais num desenho, padrão ou forma. Esses termos parecem estar explicados na continuação (vv. 26-28), quando a humanidade recebe poder para subjugar a Terra (ou seja, controlá-la pelo conhecimento, por saber aproveitá-la) e governar (de modo benéfico) as demais criaturas.

2 – Antropologia Cristã

 

Antropo = homem (no que diz respeito ao ser humano) + Logia = estudo, doutrina

Antropologia = Estudo do Ser Humano

 

Por que cristã? Pois o estudo do Ser Humano se dará por meio do entendimento Bíblico acerca da origem do homem.

A constituição da natureza humana é outro tema que surge quando se pergunta o que é o ser humano: um todo unitário, ou formado por dois ou mais componentes? E se é formado por múltiplos componentes, quais são eles?

Ao estudarmos as partes constituintes da natureza do homem, desejamos reiterar que cremos ser ele o resultado de uma criação especial de Deus, e é assim que consideraremos toda a constituição do homem, como vindo da parte de Deus.

2.1. Monismo

Segundo essa teoria, o ser humano não deve ser considerado de forma alguma, uma composição de partes ou entidades separadas, mas como uma unidade radical. Sua principal ideia é a ideia hebraica da personalidade, de um corpo com vida, não de uma alma encarnada.

O homem é um espírito, tem uma alma e habita um corpo[1].

É de suma importância conhecer esses conceitos para entendermos as visões dos seres humanos. Compreender que somos uma unidade para que, por exemplo, ao evangelizar, priorizemos o homem como um todo, não apenas alimentando o espírito e ignorando suas outras partes.

2.2 Dicotomia

O ser humano é composto por dois elementos. Um aspecto material, a parte que morre (o corpo); e um aspecto imaterial, que volta para Deus depois da morte (a alma ou o espírito).

Muitas vezes o termo “espírito” e “alma” são usados de forma intercambiáveis.

(Lc 1:46-47 – cântico de Maria) os termos aparecem como sinônimos.

Os componentes básicos de uma pessoa são chamados de corpo e alma (Mt

6:25). Às vezes, as palavras “alma” são usadas como sinônimo do EU ou da vida de uma pessoa. (Mt 16:26; Jo 19:30 – a exclamação de Jesus na cruz).

O texto de Lucas 10:27 não apresenta três elementos, mas quatro.

2.3 Tricotomia

 

O ser humano é composto por três elementos.

·         Corpo: físico, parte material;

·        Alma: trata-se do elemento psicológico, a base da razão, da emoção, dos relacionamentos e de aspectos afins. O que o distingue das plantas e dos animais;

·    Espírito: esse é o elemento religioso, transcendente, que capacita o ser humano a ter percepção das questões espirituais e a reagir a estímulos dessa natureza. É a sede das qualidades espirituais do indivíduo, enquanto que os traços da personalidade residem na alma (1 Ts 5:23; Hb 4:12).

A expressão “formou o homem do pó da terra”, refere-se ao corpo do homem; “soprou em suas narinas o fôlego de vida” refere-se ao espírito do homem, conforme ele veio de Deus; e “o homem tornou-se alma vivente” refere-se à alma do homem quando o corpo foi vivificado pelo espírito e levado a ser um homem vivo e consciente de si mesmo. O homem completo é uma trindade – o composto de espírito, alma e corpo. De acordo com Gênesis 2.7, o homem foi feito de apenas dois elementos independentes: o corpóreo e o espiritual. Mas, quando Deus colocou o espírito dentro do revestimento da terra, a alma foi produzida. O espírito do homem tocando o corpo morto produziu a alma. O corpo separado do espírito estava morto, mas, com o espírito, o homem passou a viver. O órgão, assim estimulado, foi chamado de alma.

3 - Funções Respectivas do Corpo, Alma e Espírito

 

É através do corpo físico que o homem entra em contato com o mundo material. Portanto, podemos classificar o corpo como aquela parte que percebe o mundo. A alma é a razão humana, munida de intelecto e que capta os sentimentos humanos. O espírito é o sopro de vida em nós pelo qual temos comunhão com Deus e somente nele podemos compreender e adorar esse Deus.

Deus habita no espírito, o eu habita na alma, enquanto que os sentidos habitam no corpo.

Destes três elementos, o espírito é o mais nobre porque ele se une com Deus.

Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta. (Tg 2:26).  

O corpo é mais inferior porque tem contato com a matéria. A alma estando entre eles, os une e recebe o caráter deles. A alma torna possível a comunicação e cooperação entre o espírito e o corpo, pois o seu trabalho é manter esses dois em seu funcionamento a fim de que não percam seu relacionamento correto – a saber, que o mais inferior, o corpo, possa ser subordinado ao espírito, e que o mais elevado, o espírito, possa governar o corpo através da alma.

O elemento principal do homem é, definitivamente, a alma, pois é através da consciência que percebemos Deus em nosso espírito, aperfeiçoando o nosso caráter através da Sua obra e transformando nossas atitudes (corpo).

O poder da alma é muito grande, visto que o espírito e o corpo, unidos lá, fazem dela o centro da personalidade e influência do homem. Antes do pecado, o poder da alma estava completamente sob o domínio do espírito. Mas o pecado rompeu isso, dando a alma o poder de escolha, conhecido como livre arbítrio. Com isso, o espírito não pode mais atuar sobre o corpo; somente por meio da permissão da alma.

Repetindo, a alma é o lugar da personalidade. À vontade, o intelecto e as emoções do homem estão lá. Como o espírito é usado para comunicar com o mundo espiritual e o corpo com o mundo natural, assim a alma fica no meio e exercita seu poder para discernir e decidir se deve reinar o mundo espiritual ou o natural.

Algumas vezes também, a alma mesma exerce controle sobre o homem, através do seu intelecto, criando assim um mundo ideativo que reina. Daí surge às religiões agnósticas, que creem apenas no intelecto humano, saciando todas as vontades do seu corpo, pois julga que não existe vida após a morte.

A.     O Espírito do Homem.

 

É Imperativo que um crente saiba que tem um espírito e que toda comunicação do mundo espiritual com o homem ocorre ali. Se o crente não discerne seu próprio espírito, ele desconhece a voz de  Deus no seu espírito, podendo dar ouvido a demônios. 2 Tm 1:14; 2 Co 11:4)

Segundo o ensino da Bíblia e a experiência dos crentes, pode-se dizer que o espírito humano inclui três funções principais: Discernimento, comunhão e revelação.

B.      Alma do Homem.

 

Além de ter um espírito que o capacita a ter comunhão com Deus, o homem também possui uma alma, sua consciência própria. Ele torna-se consciente da sua existência pela obra da alma. Ela é a sede da sua personalidade. Os elementos que nos fazem seres humanos pertencem à alma são: Intelecto, pensamento, ideais, amor, emoção, discernimento, escolha, decisão etc.

É por isso que, às vezes, a Bíblia chama o homem de “alma”, como se o homem tivesse apenas esse elemento. Por exemplo: Gênesis 12.5 refere-se às pessoas como “almas”. Quando Jacó trouxe sua família inteira para o Egito, novamente é registrado que “todas as almas da casa de Jacó, que vieram para o Egito eram setenta” (Gn 46.27).

O que constitui a alma do homem são as três principais faculdades: vontade, razão e emoção.

C.       O Corpo do Homem

 

O corpo é onde se reproduz aquilo que sentimos no espírito e refletimos na alma trazendo à tona em forma de atitudes.

É no corpo que os que os pecados são consumados.  É nele que refletimos a obra do espírito. Que o mundo natural enxerga o que está no oculto de nossas emoções. Pois como diz Mateus 12:24 - Raça de víboras, como podem vocês, que são maus, dizer coisas boas? Pois a boca fala do que está cheio o coração.

Porque do coração é que procede aos maus intentos, homicídios, adultérios, imoralidades, roubos, falsos testemunhos, calúnias, blasfêmias. (Mt 15:19)

4 - Conclusão

 

O primeiro ataque de satanás revelado pela Escritura Sagrada foi contra a Palavra de Deus. No diálogo entre a serpente e a mulher, o ponto culminante, antes da queda, foi a revelação de quem era satanás e do seu caráter. Deus havia dito ao homem poder comer de todas as árvores do jardim, menos uma, a árvore do conhecimento do bem e do mal: porque, no dia em dela comeres, certamente morrerás. Esta era a ordem, a advertência e a consequência declaradas por Deus. Entretanto, Satanás é enfático ao dizer: é certo que não morrereis.

Satanás revelou seu caráter e sua rebeldia, sua insolência e seu ataque direto contra Deus e o que ele havia dito anteriormente. O resultado todos nós sabemos. A mulher, vendo que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e, árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu.

O pecado foi consumado e gerou a morte (Tiago 1.15). A cena descrita posteriormente é uma das cenas mais lamentáveis e tristes de toda a Escritura Sagrada. Adão e a mulher, ao ouvirem a voz do Senhor que chamava por eles, se esconderam. A Palavra de Deus havia sido cumprida. Eles estavam mortos. Morreram espiritualmente falando. Esconderam-se daquele a quem deveriam ter honrado em fidelidade.

Desde então, o que identificamos é exatamente a experiência dos nossos primeiros pais se repetindo. A diferença é a roupagem, mas a tragédia de muitos em não ouvir, em não atender e não obedecer a Palavra do Senhor permanece.

Em função da vontade pessoal, em função do desejo do coração, muitos se entregam ao engano e a fábulas. Há muitos tentadores neste mundo, entretanto, o fundamento da sedução continua o mesmo. Infelizmente, satisfazer os desejos do coração é o alvo de muitos cristãos.

 

 



[1] ERICKSON, Millard J. Introdução à teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova,1997.

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