Aula 09 - A Biografia de Jesus em Quatro Edições
“Sim, estava escrito há muito tempo que o Cristo devia sofrer, morrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia. Também estava escrito que deveria ser levada a mensagem de salvação, isto é, o arrependimento para o perdão de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vocês são testemunhas do cumprimento destas coisas”. (Lc 24:46-48 – BV)
1 – Introdução
Os primeiros discípulos de Jesus eram
Judeus que frequentavam o templo e as sinagogas e viviam de acordo com as
tradições judaicas. A religião adquiriu um novo sentido a partir da
ressurreição do Mestre, pois as escrituras foram lidas de uma maneira diferente
tendo como centro Jesus, sendo Ele o Messias, o novo Salvador.
Jesus nunca escreveu nenhum livro, foram seus discípulos e pessoas próximas aos discípulos que organizaram as narrativas de sua prática, chamando-as de Evangelhos, que quer dizer: Boas Novas ou Boa Notícia.
Os discípulos reconheceram que Jesus era o Messias a partir de duas fontes: das experiências pessoais que eles tiveram com Jesus e através do cumprimento das escrituras do Antigo Testamento.
Foi aproximadamente 30 anos depois da morte e ressurreição de Jesus que os primeiros Evangelhos começaram a ser registrados. Este período ficou chamado de Período Oral, pois primeiro a mensagem de Jesus foi vivida, depois transmitida oralmente e finalmente escrita mais ou menos a partir do ano 60 d.C
2 - Quem foram os Destinatários do Novo Testamento?
Surge a pergunta: afinal de contas, para quem escreveram Mateus, Marcos, Lucas e João?
Ora, foi o próprio Senhor Jesus que ordenou aos discípulos, dizendo: "Não ireis aos GENTIOS...", "mas ide antes às ovelhas perdidas da CASA DE ISRAEL" (Mt 10.5,6).
Mediante isto:
· Mateus - escreve para todos os Judeus. Observamos isso pelo fato dele procurar apresentar Jesus sempre como Rei ou Messias prometido a eles nas escrituras, descendente de Davi.
· Marcos - apresenta Jesus como um servo, e servos não necessitam de genealogia. Os judeus romanos, a quem Marcos direcionou o seu Evangelho, não tinham interesse em saber de onde um servo tinha vindo, mas sim em saber o que ele poderia fazer.
· Lucas - escreve para os Judeus Gregos apresentando Jesus como o Filho do Homem, por isso mostra sua genealogia até Adão, mostrando sua perfeição humana diferente do seu ancestral.
· João - escreve aos Judeus convertidos (chamado por Paulo de "o evangelho da circuncisão Gl 2.9"), apresentando Jesus como Filho de Deus vindo na carne e apontando para Sua eternidade.
3 – Os Evangelhos Sinóticos
Evangelhos Sinóticos é um termo que designa os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas por conterem uma grande quantidade de histórias em comum, na mesma sequência, e algumas vezes utilizando exatamente a mesma estrutura de palavras.
A palavra “sinótico” vem do grego συνοπτικός que significa “resumo”. Ou seja, esses três livros escreveram de forma paralela e resumida a história de Jesus.
3.1 – Mateus
Também chamado de Levi, era um publicano e por este motivo, seus relatos são tidos como oculares e fiéis, já que ele tinha muita facilidade de reproduzir o que ouvia pela prática do seu trabalho. Também foi o único a registrar o Sermão do Monte.
O propósito do Evangelho de Mateus era apresentar Jesus como o Messias prometido por Deus. Para isto, ele o descreve como o cumprimento das profecias anunciadas pelos profetas no Antigo Testamento. Por isso, começa com a genealogia mostrando que Jesus era o tão esperado rei prometido, e que o reino Dele era o cumprimento do plano da redenção de Deus.
Ele nos informa que Jesus: cumpriu as Escrituras; inaugurou o Reino de Deus; comissionou seus seguidores a espalhar esse reino a todos os povos, tribos e línguas; advertiu que a tarefa de evangelizar seria acompanhada de aflições e perseguições, mas também avisou que sempre estaria com aqueles que são seus. Por fim, Ele prometeu que um dia retornaria e que o Reino de Deus alcançará sua plena realização.
3.2 – Marcos
Ele não foi um dos discípulos de Jesus, mas provavelmente tenha sido do apóstolo Pedro.
O Evangelho de Marcos foi o primeiro Evangelho a ser escrito, mais ou menos pelo ano 57-59 d.C. para a comunidade judaica convertida em Roma, que estava sendo perseguida pelo império. A motivação do livro era animar, confortar e dar esperança esta comunidade.
O evangelho de Marcos traz um fato exclusivo e, no mínimo, curioso no momento que Jesus está sendo levado pela guarda ao Sinédrio. Um homem vestido com apenas um lençol está segundo Jesus e quando a guarda tenta prendê-lo, o jovem acaba deixando cair o lençol e foge nu.
Estes são os versículos que relatam o ocorrido: "Um jovem, vestindo apenas um lençol de linho, estava seguindo a Jesus. Quando tentaram prendê-lo, ele fugiu nu, deixando o lençol para trás." Marcos 14:51,52
Essa passagem parece estar meio que fora de contexto, como se não precisasse estar ali, por não acrescentar nada à mensagem do evangelho. Então, o que levou Marcos a escrever sobre esse fato? Quais são seus motivos, afinal? Acredito que tenha sido algo relevante para o próprio autor e boa parte dos historiadores diz que este jovem que o texto relata seria o próprio João Marcos. Claro que não temos certeza, mas esta é uma suposição.
Uma presunção interessante que encontrei a respeito do ocorrido, é a seguinte:
“É provável que a casa de Maria, mãe de João Marcos, fosse o local onde ocorreu a última ceia de Jesus. Como Judas saiu antes do término da ceia, não sabia que Jesus tinha ido ao Getsêmani, por isso o traidor se dirige à casa de Maria, acompanhado de uma guarnição de soldados armados que fazia a segurança do Templo. Nesse momento, o jovem João Marcos, que já estava deitado, se levanta e vê que Judas está saindo na direção do jardim onde Jesus costumava orar. Então, o jovem Marcos resolve avisar a Jesus e sai apressado, enrolado apenas com um lençol, pois na pressa, teria sido a única coisa que encontrou para se cobrir. Ao chegar lá, Jesus já estava preso, Marcos então meio desnorteado, vai o acompanhando até que é obrigado a correr, deixando o lençol nas mãos dos guardas.” (Professor Marcos André, Clube da teologia)
Na verdade, o que conhecemos de Marcos é aquilo que encontramos no livro de Atos, que nos diz que seu primeiro nome era João (At 12:12-25; 14;37), filho de certa Maria cuja a casa em Jerusalém servia para reuniões da comunidade, ou seja, o cenáculo também era uma sinagoga. E era primo de Barnabé (Cl 4:10)
João Marcos acompanhou o trabalho missionário de Barnabé e Paulo (At 12,25;13,5). Foi causa de discussão entre os Apóstolos (At 15;37-39). Abandonou a Paulo e trabalhou com Barnabé (At 15:39) Mas as diferenças entre Paulo e Marcos não duraram muito (Cl 4:10; Fm 24; 2 Tm 4:11). Marcos esteve em Roma com Pedro (1 Pd 5:13). Ele sempre foi uma pessoa bastante atuante nas primeiras comunidades ao lado dos Apóstolos como Paulo, Barnabé e Pedro. Marcos fez um grande trabalho reunindo passagens espalhadas e soltas sobre Jesus nas primeiras comunidades dando inicio ao primeiro Evangelho
3.3 – Lucas
Médico de Origem Grega, convertido e companheiro de Paulo o Apóstolo. Não conheceu pessoalmente a Jesus de Nazaré. Escreve mais ou menos no ano 85 d.C., após uma longa pesquisa (Lc. 1,1-4), talvez na cidade de Éfeso, e é considerado o Evangelho mais completo. Ele também não conhece o território de Israel, logo não tem muita lógica na geografia de seus escritos.
Ele também faz o registro da genealogia de Jesus levando-o até o seu ancestral Adão, através da linhagem de Maria.
Lucas escreve dois livros: O Evangelho e os Atos dos Apóstolos. No Evangelho apresenta o caminho de Jesus, que saí de Nazaré e tem como ponto de chegada Jerusalém onde morre. Nos Atos apresenta o caminho da Igreja, que começa em Jerusalém e se espalha até os confins da terra.
4 – O Evangelho de João
João era pescador, e assim como Mateus, foi testemunha ocular do ministério de Jesus. Era o mais novo dos discípulos e antes fora discípulo de João Batista (Jo 1:35-40). Era também primo de Jesus (Jo 19:25) e irmão de outro discípulo chamado Tiago Maior.
Cerca de 90% registrado no Evangelho de João, não se encontra em nenhum outro relato dos evangelhos.
O Evangelho de João é ricamente doutrinário, sendo alguns dos principais temas a divindade de Jesus mostrando-o como o Filho de Deus, a Expiação de Cristo, a vida eterna, o Espírito Santo, a necessidade de nascer de novo, a importância do amor ao próximo e de acreditar no Salvador.
Uma das maiores contribuições de João é a inclusão dos ensinamentos de Jesus aos Seus discípulos horas antes de ser preso, inclusive a grande Oração Intercessora, oferecida na noite que antecedeu sua morte feita no Getsêmani.
Dos sete milagres relatados por João, cinco não foram registrados em nenhum outro evangelho.
- As bodas de Caná (2:1-12)
- Cura do filho de um funcionário (4:43-54)
- Cura do paralítico (5:1-47)
- Multiplicação dos pães (6:1-15)
- Caminhar sobre as águas (6:16-70)
- Cura do cego de nascença (9:1-41)
- Ressurreição de Lázaro (11:1-54)
5 - Por que os Evangelhos possuem pontos Diferentes?
Vamos imaginar que um jornal deseja fazer uma reportagem sobre os bastidores de uma campanha eleitoral para Presidente da República. E para ter certeza que a reportagem final conterá todas as informações relevantes, escala quatro repórteres diferentes para fazerem relatos independentes entre si.
Os quatro repórteres – pessoas sérias, dedicadas e competentes – são pessoas com formação profissional muito diferente, garantindo que o “olhar” de cada um sobre os fatos seja bem individual.
De forma proposital, dois desses repórteres vão acompanhar pessoalmente os acontecimentos, enquanto os outros dois limitar-se-ão a entrevistar pessoas que venham a ser testemunhas ocular dos fatos relatados.
Ao final da campanha, os quatro repórteres vão entregar seus trabalhos para o editor do jornal, sem nunca terem tido contato entre si. Você acha que os relatos entregues ao jornal serão iguais? É claro que não. E se fossem iguais, seria o caso de imaginar uma fraude.
Na verdade, os relatos vão se completar e apresentar pontos de vista diferentes sobre uma mesma realidade, fazendo com que o conjunto dos quatro relatos contenha um conjunto de informações muito mais completo e rico.
E não será justo afirmar, depois que a reportagem estiver pronta, que qualquer dos repórteres mentiu, a partir da constatação que os relatos individuais serão diferentes.
E foi exatamente isso que aconteceu com os Evangelhos: os quatro relatos foram produzidos porque o “editor do jornal” (o Espírito Santo) queria que o Novo Testamento contivesse um relato diversificado daquilo que aconteceu com Jesus. E Mateus, Marcos, Lucas e João cumpriram fielmente a “encomenda” recebida.
6 - Alguns Detalhes em Comum
Há ainda um aspecto muito importante a comentar: como os repórteres da Campanha Presidencial terão espaço limitado para seu relato, precisarão escolher o que incluir e o que deixar de fora. Certamente vão incluir aquilo que lhes parecer ser mais importante, essencial mesmo (os fatos fundamentais, quem ganhou, quem perdeu e assim por diante). Assim, os quatro relatos vão muitas vezes falar de coisas diferentes.
E assim aconteceu com os quatro Evangelhos: somente Mateus e Lucas relataram o nascimento e alguma coisa da infância de Jesus, mas somente Mateus falou sobre o Sermão onde Ele citou as “bem aventuranças”. Somente esses dois Evangelhos registram as palavras da oração do “Pai Nosso”, mas somente João relatou a oração que Jesus fez pouco antes de ser preso. E assim por diante.
Agora, os fatos que todos os quatro repórteres do jornal escolherem relatar sem dúvida serão aqueles de maior importância. E o mesmo aconteceu com os “repórteres” bíblicos: onde os relatos dos quatro evangelistas abrangem as mesmas coisas é porque os fatos relatados são cruciais.
E quais fatos são esses? Alguns são bem fáceis de identificar, como a crucificação, a morte e a ressurreição de Jesus. Mas outros provavelmente vão surpreender você, comprovando que nem sempre olhamos para a Bíblia como deveríamos. Veja a seguir a lista dos demais pontos relatados pelos quatro evangelistas:
· O batismo de Jesus por João Batista. Isso comprova que João foi uma figura de grande importância na história de Jesus, embora hoje seja pouco lembrado.
· A última refeição com os discípulos, quando Jesus instituiu o sacramento da Santa Ceia.
· O milagre da multiplicação dos pães, quando Jesus alimentou uma multidão faminta. Esse milagre é uma metáfora para o sacramento da ceia – os(as) cristãos(ãs) passaram a ser “alimentados(as)” espiritualmente pelo corpo e o sangue de Jesus.
· O aviso a Pedro que ele iria negar Jesus, que serve de alerta para nós: devemos sempre estar atentos contra as ciladas de Satanás e jamais confiar apenas nos nossos próprios recursos.
· As primeiras pessoas que viram Jesus depois da ressurreição foram mulheres – esse registro deve ser entendido como uma homenagem àquelas que foram suas mais fiéis seguidoras.
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